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O papel das instituições sócio-culturais no desenvolvimentoMonday, 10 December 2007
Um olhar critico à cultura Zambeziana. Senhora Primeira Ministra;
Que me seja permitido congratular o Governo da província, por mais este esforço de procura de caminhos para o desenvolvimento da Zambézia, minha terra natal, e agradecer acima de tudo por me terem honrado, convidando-me para este grandioso evento. Senhor Governador, muito obrigado pelo gesto! Tendo nascido nesta província no nordeste (terra dos macuas-lomués), crescido no sul (dos senas), vivido três anos consecutivos nesta cidade(dos chuabos) e fixado residência há 24 anos no Maputo(dos rongas e changanas), o convívio com gente da minha terra, lá e aqui, ouso pensar em voz alta que se algum extracto da sociedade civil residente em Maputo, propusesse hoje um encontro de zambezianos, para discutir o desenvolvimento da sua terra natal, tal convite teria sido, por muitos, recebido com um misto de cepticismo e cinismo, pelas razões que a seguir tentarei aflorar. Contudo, este encontro não é organizado por essa sociedade civil e, outrossim, não inclui zambezianos apenas! Com efeito, tenho tentado reflectir, se a nossa maneira de ser e estar em sociedade ajuda a alavancar ou não o desenvolvimento desta terra. Ou seja, se a nossa cultura que nos é especifica motoriza ou obstaculiza o combate à pobreza na nossa terra. O tempo que me foi dado não permite retórica, pelo que não vou entrar nas definições académicas do que são instituições. Mas gostaria de concordar com a teoria segundo a qual instituições são um conjunto de normas, mecanismos e organizações formais e informais que governam e orientam a vida em sociedade. Tendo em conta o que atrás foi dito, gostaria que reflectíssemos nas normas informais, nas crenças, percepções, atitudes e comportamentos dos indivíduos zambezianos, fora e dentro da Zambézia, de forma a aferirmos se tais atitudes e comportamentos dum e doutro, ali e acolá, ajudam ou não a realização do desenvolvimento desta província. Para já, breves referências: (i) Mercadores americanos nos séculos 17 e 18 e comerciantes chineses até os dias de hoje, partilhavam e partilham informação sobre oportunidades de negócio entre si para facilitar as suas transações. (ii) Em algumas regiões de Africa incluindo no sul do nosso país, senhoras vendedoras nos mercados apoiam-se entre si, incluindo com competidores directos, às vezes vendendo produtos dum dos seus membros, em caso de doença, entregando-lhe depois o produto da venda.(iii) Na Indonésia, um sistema informal inibe parceiros comerciais/ ou devedores de credito bancário de defraudarem as suas obrigações com o receio de perca de reputação que resultaria na sua exclusão em futuras transações. (iv) Nos anos 90, na Albânia, o Banco Mundial baseou-se nas normas informais da comunidade local que enfatizavam a reputação para encorajar o reembolso dos créditos concedidos aos agricultores familiares. (v) No sul onde resido, é prática parentes e amigos reunirem em convívio para celebrar o sucesso, a promoção ou nomeação, dum dos seus membros que uma vez num posto, procura apoiar os seus, e não só lamentam como o apoiam quando aquele é despromovido. Narradas as experiências acima e olhando para a Zambézia, começo com o papel do capital social perguntando se os diversos grupos sociais, os membros das famílias e amigos têm sido importantes suportes na entre-ajuda, com destaque para os menos possibilitados para saírem da pobreza? Atento-me no exemplo das comunidades de origem asiática no nosso país! Capital humano: o vasto capital humano zambeziano, disperso pelo país e mundo fora, tem se interessado e prestado contributo significativo no desenvolvimento desta terra? Os jovens que se deslocam a Maputo terminados os seus cursos aceitam, facilmente, regressar e aqui trabalhar? Investimento privado: quantos filhos da terra residindo em Maputo têm construídas, aqui, suas casas e outros projectos de negocio para além de competirem pelas terras da Matola, Marracuene e Boane? Se poucos,será somente pelo desejo de administração directa? Confiança: é o zambeziano dono da sua palavra? Quando se lhe empresta dinheiro devolve voluntariamente, sem ser exigido? Ou seja: eu como investidor “estrangeiro” posso fazer parceria com o zambeziano sem incorrer no risco de levar uma “cabeçada”? Carácter: É o zambeziano pessoa de caráter e conduta previsível! Serviço ao cliente: No escritório, quantas vezes toca o telefone para ser atendido? E num restaurante, quantos minutos um cliente é feito esperar para ser atendido? Quando o cliente/cidadão reclama por uma eventual má qualidade de serviço como reage o empregado/patrão/chefe? Numa família: Quantos empregados domésticos uma esposa domestica exige ao marido funcionário publico ou privado? Em 100 empregados domésticos quantas senhoras podemos encontrar? Qual é a proporção de senhoras que se dedicam a negócios de geração de rendimento, exceptuando o trabalho da machamba? Quando é nomeado/promovido um zambeziano: os outros se mostram felizes e é habito congratularem-no? E como o nomeado depois se comporta, puxa nos outros ou prefere ficar só, para mostrar aos restantes que ele é a única “estrela”? Governação: as comunidades cooperam facilmente com um governante? Mostram alguma preferência entre, por exemplo, um administrador distrital natural e um “desconhecido”? Os vários grupos étnicos: aceitam-se mutuamente e cooperam com facilidade e naturalidade para alcançar objectivos sociais e econômicos comuns? Ora, se a resposta que em silêncio cada um de nós teve sobre cada questão colocada entende que não propicia o desenvolvimento, então devemos começar, cada um, individualmente, a trabalhar no sentido a assumirmos o papel de “agentes de mudança”, para introduzirmos e enriquecermos na cultura zambeziana os valores culturais que podem ajudar a facilitar a realização do desenvolvimento. Não será de um dia para outro, mas há que ir, cada um onde se encontre, fazendo alguma coisa para cultivarmos as atitudes e comportamentos que maximizem os esforços de combate a pobreza na nossa província e no país em geral. Para terminar: quando ia embarcar no Maputo, um amigo Zambeziano me pergunta: “também foste convidado para à II conferência?”. Perguntei-lhe porque esse “também”? E a mim que nem se quer me tinha ocorrido, ele sentencia: "Só um Governador não zambeziano pode unir os filhos da Zambézia”. Disse-lhe adeus, mas com a única certeza: a de que só unidos como província e como pais, poderemos lograr o desenvolvimento. Muito obrigado. Quelimane, aos 29 de Outubro de 2006. Benjamin Pequenino |
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